A busca da Itália por respostas após mais uma ausência na Copa do Mundo gerou muitos debates, mas uma mensagem tem surgido repetidamente dos ex-jogadores e treinadores que falaram com a Football Presse esta semana.
O problema dos Azzurri não é simplesmente tático.
É cultural.
Depois de ouvir o ex-diretor esportivo do Napoli, Mario Meluso, o ex-assistente da Itália, Alberico Evani, e a lenda do Cagliari, Marco Sanna, a Football Presse continua sua série "A crise da Itália" com Giuseppe Incocciati -- um jogador que viveu o futebol italiano durante uma de suas maiores eras.
Incocciati sabe o que significa jogar em um país obcecado por técnica e criatividade. Um atacante que representou clubes como AC Milan, Napoli, Bologna e Atalanta, ele também trabalhou sob Arrigo Sacchi no Milan, vivenciando em primeira mão o equilíbrio entre organização tática e qualidade individual.
E para Incocciati, esse equilíbrio é exatamente o que o futebol italiano perdeu.
"Existem dois aspectos em relação ao futebol italiano," disse Incocciati à Football Presse. "De um lado, há a governança, onde esperamos que pessoas com grande experiência esportiva saibam onde intervir para melhorar a organização do futebol italiano e também tudo que está conectado ao lado econômico.
"Mas então há o aspecto técnico, onde a governança pode fazer muito pouco."
Para Incocciati, as decisões-chave serão as pessoas escolhidas para reconstruir a estrutura do futebol.
"Precisamos identificar pessoas que sejam capazes não apenas de gerenciar a área técnica, os colaboradores e tudo ao redor do ambiente, mas acima de tudo pessoas que entendam o que está faltando hoje.
"Porque eu acredito que a habilidade mais importante no futebol é a técnica individual."
Isso, ele acredita, é onde a Itália ficou para trás.
"Espero que as novas pessoas responsáveis pela educação no futebol sejam capazes de transmitir desejo, imaginação e proteger os jovens jogadores que têm talento. Não podemos apenas criar jogadores que sejam simples executores de instruções táticas, como vimos até agora.
"Olhando para os resultados, não tem sido produtivo. Precisamos mudar de direção."
Essas palavras seguem um tema semelhante às entrevistas anteriores da Football Presse nesta série.
Meluso argumentou que a Itália deve reformar seu sistema de desenvolvimento juvenil e criar mais oportunidades para jogadores italianos. Evani pediu um retorno à educação técnica adequada. Sanna alertou que o futebol italiano perdeu parte de sua identidade.
Incocciati acredita que o problema raiz é que a Itália não está mais desenvolvendo jogadores que possam mudar jogos por conta própria. A evidência, ele argumenta, pode ser vista em nível internacional.
Assistir à Copa do Mundo deste verão apenas reforçou sua crença de que o futuro do futebol pertence a equipes com coragem e habilidade técnica.
"Quando olho para esta Copa do Mundo, vejo coisas que refrescam minha memória," ele disse. "Eu venho de uma cultura futebolística que era este futebol que estamos vendo hoje -- um futebol de qualidade."
Para Incocciati, a maior lição é que o futebol moderno não está se afastando da técnica. Está retornando a ela.
"Paradoxalmente, as equipes que têm mais coragem porque têm a capacidade de jogar e manter a posse são as que estão progredindo."
Ele apontou para a ascensão de nações inesperadas e o cenário internacional em mudança.
"Vimos o Paraguai eliminar a Alemanha. Vimos equipes que talvez não fossem consideradas entre as favoritas mostrando qualidade e personalidade. Em outros países, o futebol evoluiu e produziu grandes resultados."
Sua preocupação é que a Itália não evoluiu da mesma forma.
"Mesmo em nível europeu, paramos um pouco."
A ironia é que Incocciati vem de uma geração frequentemente associada ao futebol tático. Mas ele acredita que as maiores equipes italianas foram bem-sucedidas porque as táticas foram construídas em torno de jogadores extraordinários -- não porque os sistemas os substituíram.
Sua mensagem é que o talento ainda precisa ser protegido.
"Diego Maradona foi único," disse Incocciati ao discutir os maiores jogadores que enfrentou. "Havia apenas um jogador como ele no mundo. Seu talento teria se destacado de qualquer maneira."
Mas para todos os outros, o desenvolvimento é importante.
"Os grandes jogadores que tivemos -- Baggio, Totti, Del Piero -- tinham talento, mas esse talento foi desenvolvido. Eles foram treinados, foram desenvolvidos, foram ajudados a se expressar."
Esse é o desafio que o futebol italiano enfrenta agora. Não simplesmente encontrar a próxima superestrela.
Mas criar um ambiente onde jogadores talentosos tenham a liberdade, educação e confiança para se tornarem um.
Para Incocciati, a resposta não é abandonar as táticas.
É lembrar que o futebol começa com o jogador.
Antes do sistema.
Antes da formação.
Antes das instruções.
Com técnica, imaginação e a coragem de fazer algo acontecer.
