Marco Negri sabe melhor do que a maioria o que o futebol italiano perdeu.
O ex-atacante do Bologna, Udinese e Rangers surgiu durante uma era em que a Itália produziu alguns dos maiores jogadores de ataque do futebol mundial. A Serie A era a liga mais forte do planeta, os melhores jogadores queriam se mudar para a Itália, e a seleção nacional tinha um suprimento aparentemente infinito de atacantes de elite.
De Roberto Baggio e Alessandro Del Piero a Christian Vieri, Gianfranco Zola, Francesco Totti, Roberto Mancini e Vincenzo Montella, o talento ofensivo da Itália era a inveja do futebol mundial.
Hoje, Negri acredita que essa linha de produção desacelerou dramaticamente -- e ele vê a falta de atacantes italianos de classe mundial como um sintoma de um problema muito maior. O ex-herói do Rangers é a voz final na série "A crise da Itália" da Football Presse, seguindo a análise de Mario Meluso, Alberico Evani, Marco Sanna e Giuseppe Incocciati, que examinaram as questões que afetam o futebol italiano de diferentes perspectivas.
Para Negri, a maior preocupação é clara: a Itália não está mais desenvolvendo jogadores suficientes capazes de decidir jogos no mais alto nível.
"Quando eu jogava, havia 10 ou 11 jogadores de muito alto nível no ataque -- de Vieri a Totti, Vialli, Mancini, Baggio, Del Piero e Montella," disse Negri. Football Presse.. "Havia tantos. Hoje, em vez disso, lutamos para convocar quatro ou cinco."
Para o ex-atacante, isso não é uma coincidência. Ele acredita que o problema começa muito antes, com a forma como os jovens jogadores são desenvolvidos.
"O fato de que não há mais grandes atacantes italianos é um problema que vem dos setores de base e da metodologia que é utilizada."
Negri acredita que o futebol italiano deve redescobrir a importância da habilidade individual e da criatividade, em vez de produzir jogadores que simplesmente seguem instruções táticas.
"Você tem que olhar para o crescimento dos jogadores, as estruturas e tudo que está conectado a isso, e tentar mudar algo."
Seus comentários ecoam um tema recorrente ao longo da série "A crise da Itália" da Football Presse. O ex-diretor esportivo do Napoli, Mario Meluso, argumentou que os clubes italianos precisavam investir mais pesadamente em talentos locais, enquanto Alberico Evani alertou que o país deve melhorar o caminho do futebol juvenil para a seleção nacional sênior.
Marco Sanna também destacou a importância de proteger a identidade do futebol italiano, enquanto Giuseppe Incocciati enfatizou a necessidade de trazer de volta a qualidade técnica e a imaginação.
Para Negri, o declínio do futebol italiano não pode ser separado da lacuna financeira que se abriu entre a Serie A e as ligas mais ricas da Europa.
"A liga italiana não é mais a melhor do mundo porque há ligas que são superiores, como a Premier League e a Espanha.
"Infelizmente, tudo está conectado às receitas de televisão. Se os clubes ingleses têm mais dinheiro para gastar, então, quando há um talento disponível, eles podem contratá-lo antes de um clube italiano."
O ex-atacante se lembra de quando a situação era completamente diferente.
"Uma vez, todo jogador queria vir para a Itália porque havia grandes salários e o futebol italiano era o lugar onde você podia crescer e se mostrar. Agora, infelizmente, não é mais assim."
Negri acredita que a Serie A foi forçada a uma posição diferente no mercado de transferências, muitas vezes atraindo jogadores após seus anos de pico, em vez de durante seu auge.
"Agora o futebol italiano é forçado a trazer grandes jogadores, mas muitas vezes no final de suas carreiras, como De Bruyne ou Modric."
Essa realidade financeira, ele argumenta, também afetou a seleção nacional porque os clubes italianos têm menos capacidade de garantir os melhores jovens talentos que estão surgindo na Europa. A crise atingiu outro momento doloroso quando a Itália não conseguiu se classificar para a Copa do Mundo, continuando uma tendência preocupante após também ter perdido os torneios de 2018 e 2022. Para Negri, ver os Azzurri caírem tão longe de seus padrões históricos tem sido difícil.
"A seleção italiana ganhou tantas Copas do Mundo e Campeonatos Europeus. Ver isso nesta situação é realmente triste."
Antes da falha de qualificação da Itália, Negri estava encorajado pela nomeação de Gennaro Gattuso, acreditando que o ex-meio-campista poderia restaurar a paixão e uma conexão mais forte com a camisa nacional.
"Trazer o Rino trouxe um sopro de otimismo e paixão, uma conexão com a camisa."
No entanto, a falha da Itália em alcançar a Copa do Mundo encerrou o mandato de Gattuso e abriu um novo capítulo para a FIGC, com Paolo Maldini agora nomeado como diretor técnico enquanto a federação tenta reconstruir sua estrutura esportiva. Para Negri, a solução não pode ser simplesmente mudar de treinadores.
O ex-atacante acredita que a Itália deve abordar a cultura futebolística mais profunda que produz jogadores. O declínio não se trata apenas de táticas ou resultados. Trata-se de saber se o futebol italiano pode mais uma vez criar futebolistas com a imaginação e a qualidade para decidir partidas. Negri também apontou para a evolução do jogo moderno, onde países dispostos a abraçar a habilidade técnica e a coragem ofensiva estão sendo recompensados.
"Estamos vendo que em outros países a evolução do futebol produziu grandes resultados. As equipes que têm mais coragem porque têm qualidade na posse são as que estão progredindo."
Para uma nação que produziu gerações de atacantes icônicos, a pergunta permanece por que essa linha de talentos desacelerou.
A resposta de Negri é simples: a Itália precisa voltar a desenvolver jogadores, não apenas gerenciá-los. O país não precisa olhar para trás para Baggio, Totti, Del Piero e Vieri com nostalgia.
Precisa entender como esses jogadores foram criados -- e encontrar uma maneira de produzir a próxima geração.
