O país que antes desenvolvia meio-campistas versáteis e tecnicamente talentosos começou a produzir zagueiros fisicamente imponentes e jogadores ofensivos em vez disso. Para Vickery, as razões vão fundo na estrutura do futebol brasileiro.
"O Brasil sempre produziu zagueiros e atacantes," Vickery diz Football Presse. "Mas você tem um problema com o meio-campo central. E você também tem um problema com os laterais.
"A questão do zagueiro é interessante porque o sistema de futebol juvenil se tornou muito voltado para resultados. Você tem treinadores de base que não são muito bem pagos, e eles estão tentando ganhar promoções, então o que eles fazem? Eles escolhem altura.
"Você tem esses zagueiros enormes, esses monstros, que podem marcar em cobranças de falta, mas eles não conseguem realmente jogar. E então você nunca mais ouve falar deles."
Marquinhos é um exemplo do outro lado dessa equação. Vickery acredita que a obsessão do Brasil por características físicas também pode deixar de lado jogadores que não se encaixam no modelo convencional.
"Marquinhos é um exemplo maravilhoso," ele diz. "Ele teve que ir para o exterior porque no Brasil ele era considerado pequeno demais para ser zagueiro. E eu acho que ele é realmente subestimado.
"Eu gostaria de vê-lo jogando em uma posição onde ele tenha que defender mais, porque ele tem a habilidade de ler o jogo e usar a bola. Mas o sistema brasileiro estava olhando para sua altura e dizendo: 'Ele é pequeno demais.'"
O problema do meio-campo tem uma história ainda mais longa.
Vickery traça isso de volta à extraordinária sequência do Brasil de três finais consecutivas de Copas do Mundo entre 1994 e 2002. Essas equipes foram bem-sucedidas, mas sua estrutura tática também se tornou um modelo que o futebol brasileiro copiou de forma muito fiel.
"O sucesso dessas equipes teve um efeito curioso," ele diz. "Quase todo mundo estava jogando 4-4-2, com dois volantes e dois meias ofensivos. Então você parou de produzir o meio-campista versátil.
"1982 é provavelmente a última seleção brasileira onde você poderia dizer: 'Esses são os De Bruynes.' Eles tinham jogadores que podiam jogar em ambas as direções, que podiam receber a bola, passá-la, fazer as coisas acontecerem e também trabalhar.
"Olhe para a Bélgica em 2018. Eles tinham Lukaku e De Bruyne. O Brasil não tinha esses equivalentes no meio-campo. O Brasil tinha bons jogadores, mas era forte em certas posições e fraco em outras."
O problema foi agravado pela forma como o futebol brasileiro desenvolve e vende jovens jogadores.
"O resto do mundo aprendeu a produzir talento," Vickery diz. "Essa era uma das grandes vantagens do Brasil. Agora a Europa Ocidental também aprendeu a fazer isso.
"Em muitas seleções nacionais bem-sucedidas, a federação tem um projeto para produzir jogadores. O Brasil realmente não teve isso. Ficou a cargo dos clubes.
"E os clubes têm um interesse diferente. Eles estão pensando em produzir jogadores que possam vender. O atacante aberto é o mais fácil de vender. Ele tem aceleração, pode jogar um contra um e os clubes europeus o querem.
"O meio-campista central é mais difícil de vender. Então o próprio mercado começa a influenciar que tipo de jogador é desenvolvido."
Isso torna Jorginho um caso especialmente revelador.
Nascido no Brasil, Jorginho se mudou para a Itália quando adolescente e se desenvolveu no Hellas Verona antes de se tornar um meio-campista chave para Napoli, Chelsea e Arsenal. Ele escolheu representar a Itália internacionalmente, vencendo a Euro 2020, antes de retornar ao futebol brasileiro com o Flamengo em 2025.
Para Vickery, sua carreira demonstra o que o sistema de desenvolvimento do Brasil estava falhando em reconhecer.
"Jorginho é mais um," ele diz. "O Brasil não o teria escalado. Ele não é particularmente rápido, não é particularmente forte, mas tem uma maravilhosa capacidade de passe.
"Ele se desenvolveu na Itália porque o Brasil realmente não jogaria com esse tipo de meio-campista. Ele não era o que eles estavam procurando. E essa é a primeira coisa: o que você está procurando?
"Ninguém no Brasil estava realmente procurando suas características. Então ele teve que ir para o exterior, e então ele se torna um internacional italiano."
Seu retorno ao Brasil cria uma ironia óbvia. O jogador que teve que deixar o país para encontrar um ambiente que valorizasse suas qualidades agora está de volta ao jogo doméstico, trazendo essa experiência consigo.
"É por isso que espero que os treinadores portugueses tenham ampliado a mentalidade no Brasil," Vickery diz. "Porque se você puder produzir outro Casemiro, por exemplo, que também possa passar, isso é muito mais valioso.
"O próprio Casemiro teve que lutar contra o futebol brasileiro porque queria passar. Ele foi outro jogador que foi para o exterior porque não se encaixava muito nas expectativas domésticas."
Vickery traça essa atitude em relação ao volante muito mais longe do que o jogo moderno.
"A ideia brasileira era que o volante defensivo estava lá para destruir," ele diz. "Isso remonta muito mais. Eu encontrei uma citação de Zizinho no meu livro de 1985 onde ele já estava alertando sobre isso.
"Ele estava dizendo que o Brasil estava transformando o volante em alguém destrutivo. O volante deveria ser alguém como Rodri. Ele deveria ser capaz de construir o jogo. Mas porque os treinadores estão aterrorizados de perder seus empregos, eles vão para o jogador que não vai cometer um erro."
Essa pressão começa no futebol juvenil.
"Se você perder três jogos, você está fora," Vickery diz. "Então o treinador pensa: 'Como eu evito perder?' E a maneira mais fácil é ter alguém que destrói em vez de alguém que arrisca algo com a bola.
"É assim que você acaba com os zagueiros gigantes e os volantes destrutores. Você está selecionando para o resultado imediato em vez de perguntar que tipo de jogador profissional esse garoto poderia se tornar."
A posição de lateral conta uma história semelhante de como o futebol brasileiro luta para se adaptar a mudanças que ajudou a criar.
"Os laterais se tornaram pontas," Vickery diz. "E então os pontas voltaram. Então agora você tem pontas novamente, e a pergunta é: para que serve o lateral?
"O Brasil realmente não resolveu isso. É outra posição onde a solução antiga não necessariamente funciona mais."
O desafio mais amplo é que o Brasil não desfruta mais da vantagem exclusiva que tinha antes em desenvolver jogadores tecnicamente talentosos.
"O Brasil ainda tem talento técnico," Vickery diz. "Claro que tem. Estevão é um jogador maravilhoso, maravilhoso. Talento fabuloso.
"Mas o resto do mundo alcançou. Então o Brasil tem que pensar sobre o que está fazendo. Não pode simplesmente dizer: 'Nós somos o Brasil, vamos produzir os jogadores.' Você tem que decidir o que está produzindo e por quê."
Para Vickery, a carreira de Jorginho fornece uma ilustração clara das consequências quando essa pergunta não é respondida adequadamente.
"A primeira coisa é a ideia," ele diz. "O que você está procurando?
"Se você não sabe o que está procurando, então você não vai reconhecê-lo quando aparecer. E eu acho que isso aconteceu no futebol brasileiro com os meio-campistas.
"Jorginho é um exemplo de alguém que teve que ir para outro lugar para se tornar o jogador que poderia ter sido no Brasil."
Agora ele está de volta, jogando no Brasil e oferecendo um exemplo vivo do que o sistema doméstico uma vez ignorou.
O desafio para o futebol brasileiro é reconhecer o próximo Jorginho antes que ele tenha que sair para se tornar um.
O livro de Tim Vickery "Mundials: A South American History of the World Cup" é da Pitch Publishing - que está disponível aqui.

