O ex-meio-campista, falando com Iker Casillas em seu podcast Bajo los Palos, revisitou uma carreira definida tanto pela tensão quanto pelo talento -- um jogador que, por sua própria admissão, dividiu opiniões por onde passou.
"Com Guti não havia meio-termo," ele disse. "Ou você o amava ou o odiava. E isso aconteceu no Bernabéu e em todos os estádios que visitei. Cada vez que eu entrava em campo no Bernabéu parecia um exame. Lembro de muitos apupos. E lembro de momentos em que enfrentei a torcida."
Ele foi questionado se faria o mesmo novamente: "Sim. Quando eu me voltei contra as pessoas foi porque elas disseram coisas que nunca deveriam ser ditas."
A parte mais contundente da entrevista dizia respeito à sua relação com Del Bosque, que ele descreve como seu período mais difícil no clube -- apesar de ter um carinho genuíno por ele.
"Vicente Del Bosque não foi justo comigo," disse Guti. "Eu o amo muito, mas acho que em algumas coisas ele não foi justo. Quando ele me colocou como atacante, eu marquei gols e fui importante, e então veio a final da Liga dos Campeões e ele me deixou no banco."
Os dois já haviam se desentendido muito antes disso. Como jogador juvenil, Guti saiu do treino depois de receber um colete de reserva quando sentiu que merecia ser titular. Del Bosque, então na comissão técnica, o encontrou na escada e pediu que ele voltasse. Ele se recusou.
"A verdade é que Vicente suportou muito de mim porque eu era bastante rebelde," ele disse. "Eu me rebeli contra coisas que achava injustas."
O episódio que perdurou por mais tempo foi a chegada de Beckham em 2003. Luís Figo já estava jogando bem pela direita e foi deslocado para o meio para acomodar o inglês -- na posição de Guti.
"No Madrid, Figo estava jogando muito bem na ala direita, e eles trouxeram Beckham, que também jogava naquela posição. Então colocaram Beckham como meio-campista central, que era onde eu estava jogando. O que quero dizer é que o clube não confiava em mim 100 por cento."
Ele se permitiu uma hipótese.
"Se eu tivesse sido chamado de Gutilović ou Gutinho, eu teria ganhado muito mais dinheiro. Se o Madrid tivesse me contratado, provavelmente eu teria jogado por decreto, como alguns outros que nem estavam jogando bem."
Também houve calor, especialmente na lembrança de gastar seus primeiros salários profissionais em um carro e uma casa para seus pais: "Eles passaram a vida inteira lutando por mim. Tive a grande sorte de poder fazer isso por eles."
Sobre a academia do Real Madrid, ele foi medido, mas crítico. O clube, disse ele, consistentemente olha para fora em vez de nutrir o que já tem.
"Eu adoraria que houvesse mais jogadores da cantera. A verdade é que o Barcelona muitas vezes fez isso por necessidade, mas mesmo por necessidade eles apostam em seus próprios jogadores."
Sua palavra final foi reservada para Arda Güler, o jovem meio-campista turco que agora está sendo comparado a ele por torcedores e pela mídia. A comparação, disse Guti, é um aviso -- não um elogio.
"Espero que ele não seja como Guti. 'Ele tem qualidade, o último passe, mas...' Isso é o que disseram sobre Guti. Esse tipo de jogador no Bernabéu é o mais criticado quando as coisas não vão bem."