Isso dá a Simões uma perspectiva particular sobre o treinador português. Um dos grandes jogadores do Benfica na década de 1960, Simões ganhou a Taça Europeia com o clube em 1962, conquistou 10 títulos da liga portuguesa e representou Portugal na Copa do Mundo de 1966. Ele tinha apenas 18 anos e 139 dias quando o Benfica derrotou o Real Madrid por 5-3 naquela final da Taça Europeia, tornando-se o jogador mais jovem a vencer a competição, um recorde que ainda se mantém.
Portanto, quando Simões fala sobre Mourinho, ele não está olhando para a carreira finalizada de um famoso treinador. Ele está lembrando do jovem que encontrou no Benfica, antes de Mourinho se tornar José Mourinho.
"Eu tenho uma boa impressão sobre ele," ele diz Football Presse. "Eu acho que ele nasceu para ser treinador, não para ser jogador, porque ele nunca foi um bom jogador. Mas ele era muito interessante e aprendeu a ser mais do que um treinador, a ser um líder. Ele entendeu quando era jovem que, que, que parte de ser, um, com os, com os jogadores ou com a equipe era ser um líder."
Essa distinção é importante para Simões. O dom de Mourinho, aos olhos dele, não era simplesmente um entendimento de futebol. Era um entendimento das pessoas e a capacidade de convencê-las a segui-lo.
"Ele tinha um bom discurso. Ele convenceu os jogadores sobre o caminho que eles deveriam seguir para ter sucesso, e eu acho que ele tem esse mérito. Temos que reconhecer que esse cara, uh, nasceu para ser treinador, e ele fez muito bem, e teve um sucesso incrível muito jovem até hoje como treinador."
A carreira subsequente de Mourinho faria aquela impressão inicial parecer notavelmente perspicaz. Depois de começar sua carreira de treinador principal com o Benfica e o União de Leiria, ele ganhou a Taça UEFA e depois a Liga dos Campeões com o Porto, antes de adicionar títulos da Premier League com o Chelsea, uma Liga dos Campeões e um título da Serie A com o Inter, La Liga com o Real Madrid e mais grandes honras com o Manchester United e a Roma. Ele agora retornou ao Real Madrid para um segundo período, assumindo novamente em 2026 após deixar o Benfica.
No entanto, a descrição de Simões sobre o jovem Mourinho aponta para algo mais amplo do que habilidade tática. Para ele, a qualidade definidora de um treinador é a liderança.
Esse é um tema que Simões retorna em outras partes da conversa. Ele argumenta que os treinadores importam, mas que eles não podem criar o talento futebolístico fundamental possuído pelos jogadores. Um treinador pode organizar, educar e liderar, mas o jogador, em última análise, tem que atuar.
Isso torna sua avaliação de Mourinho particularmente interessante. Ele não viu simplesmente um jovem que entendia táticas. Ele viu alguém que já entendia como fazer os futebolistas acreditarem em uma ideia.
Para Simões, essa habilidade separa o treinamento da liderança.
Isso também explica por que ele é cauteloso ao ser perguntado se Mourinho deveria eventualmente assumir o comando de Portugal.
"Eu acho que é uma boa pergunta. Eu não sei o que José Mourinho pensa sobre isso. Eu não sei se ele está preparado, mentalmente preparado, para ser, um, treinador da seleção nacional. Eu não sei se ele quer treinar todos os dias ou se, uh, decide dar os próximos passos, uh, trabalhando menos, mas com, com o mesmo entusiasmo, uh, com a mesma motivação para ter sucesso."
Não há sugestão de Simões de que Mourinho careceria da autoridade ou do conhecimento futebolístico para o trabalho. Sua incerteza é sobre algo muito mais pessoal: o que Mourinho quer da próxima fase de sua carreira.
"Eu acredito que sim. Então depende do que ele quer fazer. Ele quer estar no jogo todos os dias ou talvez um jogo por mês. Essa é a questão. Ele está pronto para deixar o que ama ou para obter partes do que ama para estar na seleção nacional."
Essa questão se tornou mais intrigante com o tempo. Mourinho permaneceu na linha de frente do futebol de clubes por mais de duas décadas, e mesmo após passagens por Tottenham, Manchester United, Roma e Fenerbahçe, ele retornou ao Benfica em 2025 antes de aceitar a oferta do Real Madrid para voltar nesta temporada.
Seu retorno a Madrid também ilustra a extraordinária longevidade da carreira que Simões já poderia vislumbrar naquele jovem treinador. Mourinho agora está trabalhando no mesmo clube onde gerenciou anteriormente entre 2010 e 2013, tendo já vencido a Liga dos Campeões duas vezes em sua carreira, com o Porto e o Inter.
Mas a memória de Simões sobre Mourinho permanece enraizada em algo muito mais simples do que troféus.
Ele viu um jovem que entendia que ser treinador não era suficiente.
O treinador tinha que se tornar um líder.
E para Simões, essa era a qualidade que Mourinho possuía antes dos títulos, antes das noites da Liga dos Campeões e antes de seu nome se tornar sinônimo de vitória.
"Ele entendeu quando era jovem que, que, que parte de ser, um, com os, com os jogadores ou com a equipe era ser um líder."
Mais de duas décadas depois que Mourinho começou sua carreira de treinador principal, essa continua sendo uma das descrições mais reveladoras dele por alguém que o conheceu antes do resto do futebol.
